Seu remédio é a fé

Sem nenhum custo para as família chácara abriga ex-moradores de rua e usuários de drogas. O pastor mentor também já foi usuário e acredita na recuperação pela oração.

Em uma chácara na região do Pai André, Várzea Grande, cerca de 30 jovens procuram redenção. Usuários de drogas, muitos envolvidos com a criminalidade, agora querem uma via diferente. Querem viver em paz. A maioria, antes de vir para o Centro de Recuperação era morador de rua, assim como um dia foi o mentor do local, pastor Antônio Carlos. Dentro da casa de recuperação, seu Antônio é chamado de pai pelos rapazes. Para eles o pastor tem propriedade para guia-los porque já foi um deles e venceu. É um exemplo.

Antônio Carlos é um homem negro e grande, que já chegou aos seus 50 e poucos anos. No rosto marcas e cicatrizes de um passado antigo. Pelo mesmo passado não tem os dentes da frente, espaço que é preenchido com uma ponte dentária. A história dele se repete em cada um dos garotos que ali vivem. Veio de uma família desestruturada e violenta, aos sete anos já usava drogas nas ruas de Porto Alegre, Rio Grande do Sul. A mãe o buscava na rua e trazia para casa, mas a violência enfrentada no lar o fazia voltar sempre.

Um dia a rua se tornou seu lar definitivo e foi onde viveu até os 24 anos. O envolvimento com a criminalidade foi uma consequência. Ainda criança começou ajudando os adultos. Entrava pelas janelas para abrir portas de casas, logo aprendeu a roubar sozinho. “Não adianta, a polícia mata um, aparecem cinco”. Drogas ele usou todas, os braços já foram uma peneira de tantas picadas, segundo ele. A vida de Antônio Carlos só mudou quando ele entrou em uma casa semelhante a que hoje criou e conseguiu resistir ao vício. Toda a mudança ele atribui a Deus e é na crença que tenta ajudar os rapazes que ali vivem.

Na chácara há duas casas muito simples. Uma usada para que os rapazes durmam, só foi rebocada, não tem camas e colchões suficientes, mas eles se apertam para acolher a todos. A outra casa é ocupada por um dos donos da chácara e a varanda é usada para os cultos. A estrutura é muito simples, pois a casa de recuperação não recebe nenhum tipo de pagamento pelo acolhimento que presta. Vive apenas de doações, mas muitas famílias não têm dinheiro para ajudar. O espaço também é cedido e em breve todos terão que mudar dali, pois o dono da chácara a quer de volta. Mesmo com as dificuldades o pastor insiste que manterá a casa e acredita que Deus mandará a ajuda necessária.

E é na fé em Deus que ele pretende curar todos os jovens. A casa não oferece nenhum tipo de remédio. O tratamento é feito a base de orações e conversa. O pastor e sua mulher, Márcia Cristina, passam todo o dia na chácara dando apoio aos jovens. Durante as orações os rapazes cabisbaixos que ali vivem entoam em voz alta às preces na esperança que Deus tire o vício que o mundo lhes provocou. As vozes tem o tom de soldados se preparando para a guerra.

A semana toda eles passam sozinhos, alguns fazem crochê, outros talham madeira, antigamente se plantava, mas com a perspectiva de sair da chácara a atividade foi interrompida. Aos domingos podem receber visita. Nesse dia muitos correm alegres para ver suas famílias. Outros ficam sozinhos, porque os parentes não querem vê-los ou porque nem sabem que estão ali.  Crianças, mulheres, homens e cachorros se misturam na chácara. O dia de visitas é o mais animado. Nos outros as famílias não podem vir, faz parte do tratamento. O tratamento da fé.

Entre os visitantes um homem recuperado. Marcos Antônio já teve ajuda do pastor Antônio Carlos após viver anos na rua como usuário de drogas. Hoje é aceito pela família biológica, mas sempre volta à casa de recuperação, pois considera essa sua nova família. Tem dois filhos, um jovem de 18 anos e uma menina de 10, mas a ex-esposa continua na rua. “Ela eu não consegui tirar”, relata. Ele começou a usar drogas na escola. O convívio familiar não era fácil, o pai alcoólatra batia na mãe. Daí partia a raiva que o fez tentar contra a vida do pai duas vezes. Por fim o pai morreu de cirrose e a mãe adoeceu anos depois, momento em que ele voltou a se aproximar da família. “Eu saí das drogas porque se não iria morrer”, relata.

A maioria dos rapazes que vivem ali já passaram por outras casas de recuperação. Segundo eles, a diferença dessa é que tem amor. “Não adianta tirar a gente da rua e esquecer em uma casa”, conta Elton, que está na chácara há dois meses. “Aqui eu tenho esse meu pai aqui, ó”, e abraça o pastor. Para eles cada dia sem usar drogas é um dia de vitória. “Nem todos ficam, alguns não conseguem e vão embora, tem que querer, sem força de vontade eles não conseguem”, explica o pastor Antônio. “O que oprime eles é espiritual, a oração é a chave do negócio”, acredita o mentor.

No fim da tarde, um rapaz se despede, ele vai voltar para a casa da família. Todos se despedem emocionados, Elton o abraça e chora. Eles sabem o valor de conseguir chegar até ali. Todos esperam um dia serem buscados pela família também. No mesmo dia um rapaz mais jovem chegou à chácara, trazido por seu tio, que também é pastor. Ele diz que quer a salvação. Todos ovacionam em apoio. É mais um jovem dando o seu primeiro passo num ciclo que se renova, em que uns chegam outros saem, todos com a esperança de conseguir superar o vício.


Nenhum comentário:

Postar um comentário

Postagens populares