Sem
nenhum custo para as família chácara abriga ex-moradores de rua e usuários de
drogas. O pastor mentor também já foi usuário e acredita na recuperação pela
oração.
Antônio
Carlos é um homem negro e grande, que já chegou aos seus 50 e poucos anos. No
rosto marcas e cicatrizes de um passado antigo. Pelo mesmo passado não tem os
dentes da frente, espaço que é preenchido com uma ponte dentária. A história
dele se repete em cada um dos garotos que ali vivem. Veio de uma família
desestruturada e violenta, aos sete anos já usava drogas nas ruas de Porto
Alegre, Rio Grande do Sul. A mãe o buscava na rua e trazia para casa, mas a violência enfrentada no lar o fazia voltar sempre.
Um
dia a rua se tornou seu lar definitivo e foi onde viveu até os 24 anos. O
envolvimento com a criminalidade foi uma consequência. Ainda criança começou
ajudando os adultos. Entrava pelas janelas para abrir portas de casas, logo
aprendeu a roubar sozinho. “Não adianta, a polícia mata um, aparecem cinco”. Drogas
ele usou todas, os braços já foram uma peneira de tantas picadas, segundo ele. A
vida de Antônio Carlos só mudou quando ele entrou em uma casa semelhante a que
hoje criou e conseguiu resistir ao vício. Toda a mudança ele atribui a Deus e é
na crença que tenta ajudar os rapazes que ali vivem.
Na
chácara há duas casas muito simples. Uma usada para que os rapazes durmam, só
foi rebocada, não tem camas e colchões suficientes, mas eles se apertam para
acolher a todos. A outra casa é ocupada por um dos donos da chácara e a varanda
é usada para os cultos. A estrutura é muito simples, pois a casa de recuperação
não recebe nenhum tipo de pagamento pelo acolhimento que presta. Vive apenas de
doações, mas muitas famílias não têm dinheiro para ajudar. O espaço também é
cedido e em breve todos terão que mudar dali, pois o dono da chácara a quer de
volta. Mesmo com as dificuldades o pastor insiste que manterá a casa e acredita
que Deus mandará a ajuda necessária.
E
é na fé em Deus que ele pretende curar todos os jovens. A casa não oferece
nenhum tipo de remédio. O tratamento é feito a base de orações e conversa. O
pastor e sua mulher, Márcia Cristina, passam todo o dia na chácara dando apoio
aos jovens. Durante as orações os rapazes cabisbaixos que ali vivem entoam em
voz alta às preces na esperança que Deus tire o vício que o mundo lhes
provocou. As vozes tem o tom de soldados se preparando para a guerra.
A
semana toda eles passam sozinhos, alguns fazem crochê, outros talham madeira,
antigamente se plantava, mas com a perspectiva de sair da chácara a atividade
foi interrompida. Aos domingos podem receber visita. Nesse dia muitos correm
alegres para ver suas famílias. Outros ficam sozinhos, porque os parentes não
querem vê-los ou porque nem sabem que estão ali.
Crianças, mulheres, homens e cachorros se misturam na chácara. O dia de
visitas é o mais animado. Nos outros as famílias não podem vir, faz parte do
tratamento. O tratamento da fé.
Entre
os visitantes um homem recuperado. Marcos Antônio já teve ajuda do pastor Antônio
Carlos após viver anos na rua como usuário de drogas. Hoje é aceito pela
família biológica, mas sempre volta à casa de recuperação, pois considera essa
sua nova família. Tem dois filhos, um jovem de 18 anos e uma menina de 10, mas
a ex-esposa continua na rua. “Ela eu não consegui tirar”, relata. Ele começou a
usar drogas na escola. O convívio familiar não era fácil, o pai alcoólatra
batia na mãe. Daí partia a raiva que o fez tentar contra a vida do pai duas
vezes. Por fim o pai morreu de cirrose e a mãe adoeceu anos depois, momento em
que ele voltou a se aproximar da família. “Eu saí das drogas porque se não iria
morrer”, relata.
A
maioria dos rapazes que vivem ali já passaram por outras casas de recuperação.
Segundo eles, a diferença dessa é que tem amor. “Não adianta tirar a gente da
rua e esquecer em uma casa”, conta Elton, que está na chácara há dois meses.
“Aqui eu tenho esse meu pai aqui, ó”, e abraça o pastor. Para eles cada dia sem
usar drogas é um dia de vitória. “Nem todos ficam, alguns não conseguem e vão
embora, tem que querer, sem força de vontade eles não conseguem”, explica o
pastor Antônio. “O que oprime eles é espiritual, a oração é a chave do
negócio”, acredita o mentor.
No
fim da tarde, um rapaz se despede, ele vai voltar para a casa da família. Todos
se despedem emocionados, Elton o abraça e chora. Eles sabem o valor de
conseguir chegar até ali. Todos esperam um dia serem buscados pela família
também. No mesmo dia um rapaz mais jovem chegou à chácara, trazido por seu tio,
que também é pastor. Ele diz que quer a salvação. Todos ovacionam em apoio. É
mais um jovem dando o seu primeiro passo num ciclo que se renova, em que uns
chegam outros saem, todos com a esperança de conseguir superar o vício.
Nenhum comentário:
Postar um comentário