Notáveis invisíveis, os moradores de uma casa sem teto chamada rua

Moradores de rua ocupam as principais praças e avenidas de Cuiabá, mas parecem não ser vistos. Eles vivem ali em consequência de desavenças familiares e pelo uso de drogas.

Eles parecem não existir, mas estão lá. Em cada canto da praça, nos becos, nos bancos, nas portas das igrejas, nos canteiros. As senhoras que passam seguram a bolsa, as moças atravessam a rua e os rapazes fecham o punho. Mas ninguém vê. São a escória. A esmola é negada, poucos acreditam que é para o pão. E nem sempre é. A noite eles procuram um lugar seguro, escondido, para dormir. Dependendo das condições, algum lugar seco já é o suficiente. Papelão molhado é tristeza, nessas noites passar frio é a única opção.

A rua é casa, é abrigo, sem teto, sem proteção. Mas não se sabe se eles fazem parte da rua, ou a rua faz parte deles. Aos poucos os mendigos se tornam indissociáveis dela, ela os consome e os sustenta. A rua não é o lugar inóspito que parece, ela repete o sistema vivido por toda a sociedade em cada banco ocupado, em cada rua dividida ou alugada. Seus ocupantes têm vida morosa, relacionamento social, propriedade e sua fonte de renda.

Os moradores de rua se organizam em grupos ou casais. Eles têm seu local de dormir, o mais próximo que podem chamar de lar, onde guardam suas roupas, seus cobertores, uma garrafinha de água. Eles se visitam, quando são amigos. Ou dividem as tarefas quando são casais. Cuidam um do outro, tem ciúmes, brigam, se entendem, lavam roupa, procuram por dinheiro ou comida para trazer para “casa”.

Na rua as principais formas de se ganhar dinheiro é pedindo, roubando ou cuidando de carros. Para todas elas é necessário ter seu ponto, seu local. Quando se trata de cuidar de carros então, cada um tem sua rua. Se um novato quiser trabalhar, pode alugar a rua do outro. Nessa economia informal, eles mesmos regulam seus preços e fazem sua forma de cobrança. Ingrid, que mora há oito anos em um monumento no centro de Cuiabá, lava roupas para os amigos. Ela é uma das poucas mulheres que vive na rua. Certa vez um amigo não pagou. Ingrid cobrou insistentemente, mas ele se negou a pagar. Ela esperou que ele se drogasse e pegou uma faca. “Ou paga em dinheiro, ou paga com a vida”, disse. O amigo explicou que estava sem dinheiro porque resolveu parar de roubar, Ingrid então desistiu. “Se parou de roubar nem vou cobrar”. A rua também tem consciência.

A rua é falta de consciência. Esquecer também faz parte. Alguns esquecem sem querer, como seu Ademim. O ex-pedreiro não sabe onde os filhos estão e relata, que muitas vezes esquece de quem ele mesmo foi. Já Anderson, prefere esquecer a ficha criminal que deixou em Campo Grande. Há três meses em Cuiabá ele ainda tem parte da pena para cumprir, mas fugiu quando ganhou liberdade condicional e agora quer ser internado em uma casa de recuperação. “Eu quero ter um cama descente para dormir, não quero mais essa vida na rua, não”. Os mais jovens não são tão apegados à mãe rua. Ainda não são.

Ser morador de rua é ser invisível para quem quer que se veja e notável para quem não se deseja. A polícia entra em seus lares, os acorda, bate na cara, leva a droga embora. “Eu paguei por isso, não roubei não, só quero usar”, diz um jovem revoltado, pois acabou de ser abordado por policiais. Esses são os momentos em que eles são lembrados de que a rua também é dos outros. Mas ocupar os espaços públicos não é pecado, nem crime.

Eles parecem não existir, mas continuam lá. Tem sua rotina, seus valores, seus medos, seus objetivos. Uma vida como a de qualquer um, invisíveis aos olhos da sociedade e do estado que se fazem de cegos. Mas eles não podem sair de lá. Eles, acima de qualquer coisa, são a rua, como escreve Paulo Barreto em sua crônica A Rua de 1908.  “Eu sou a rua, mulher eternamente verde jamais encontrei outra carreira aberta senão a de ser a rua e, por todo o tempo; desde que este penoso mundo é mundo, eu a sou”.

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