Seu
Ademim deixou para trás os dois filhos após perder a esposa e se tornar
alcoólatra. O homem gentil diz que tristeza o levou para as rua.
Sentado
no meio fio ele conta sua história de bom grado, ao lado de seu amigo, um homem
gordo e mais jovem, que escuta com atenção. Entre os dois um litro de Corotinho,
a pinga mais barata dos mercados. Seu
Ademim tinha esposa e filhos, trabalhava como pedreiro, tinha um carro novo,
dinheiro suficiente, uma vida digna. A esposa faleceu, ele começou a beber, “um
golinho aqui, um golinho ali”, descreve. Mas não deixava de lado os
filhos.
Porém
o álcool foi tomando conta de sua vida até o ponto em que não pôde mais controlar. Ele então trabalhar em
uma cidade vizinha a sua, no interior do Paraná e um dia não voltou mais para casa. A partir de então saiu de seu estado natal e percorreu cidades de
Mato Grosso do Sul, em alguns anos chegou a Mato Grosso. No percurso ele
conheceu as ruas, quando não tinha dinheiro para pagar um hotel dormia em um
papelão. Aos poucos a exceção virou regra e ele foi adotado pela
rua. Com uma olhadela para o lado, firmeza na voz e humildade ele afirma “mas
sempre procurando ser digno”. Seu Ademim se orgulha de nunca ter roubado.
Ele
não sabe dizer se os familiares o procuraram. “Não sei, vai ver procuraram onde
eu não estava. Nunca me encontraram”. Hoje seus filhos, Rafael e Angélica, já
são adultos. Deles o pai não sabe nada. Mesmo sem a família, seu Ademim gosta
de morar em Cuiabá, onde vive há 14 anos, ele acha a cidade acolhedora. “Tenho
amizade com todos os meninos da praça”, afirma. A rua já é sua casa, seu Ademim dificilmente sairá dela.
O
álcool faz com que seu Ademim por vezes se esqueça da vida que teve. De quem
ele foi e não raramente de quem é hoje. “Você já sentiu a sensação de não saber
quem você é”. Ele às vezes esquece. Depois seu Ademim fala de Deus. Todos os
moradores de rua conhecem a Bíblia. Não se sabe se apreenderam em suas vidas
fora dali ou depois, com a quantidade de grupos religiosos que distribuem
comida.
Após
minutos de conversa seu Ademim quer deixar um recado. “Se um dia perder alguém,
não desanima não, porque a vida é melhor, eu passei tantos anos desanimado”.
Seu Ademim ali sentado no meio-fio, sujo, ao lado de dois pães doados e um Corotinho ainda inspirava o respeito de um
pai.
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