A dignidade de um bom coração

Seu Ademim deixou para trás os dois filhos após perder a esposa e se tornar alcoólatra. O homem gentil diz que tristeza o levou para as rua.

Ademim é um homem triste e gentil. Aos 54 anos tem nos olhos uma melancolia profunda. Assim como as dezenas de homens que ocupavam a praça da República, no centro de Cuiabá, naquela manhã de domingo quente, seu Ademim esperava para receber os alimentos distribuído por dois grupos religiosos. Com seus dentes careados, as roupas e unham sujas, o senhor de barba por fazer era a figura de um mendigo típico. Mas diferente dos demais, estava em um estado de serenidade que nenhum outro apresentava.

Sentado no meio fio ele conta sua história de bom grado, ao lado de seu amigo, um homem gordo e mais jovem, que escuta com atenção. Entre os dois um litro de Corotinho, a pinga mais barata dos mercados. Seu Ademim tinha esposa e filhos, trabalhava como pedreiro, tinha um carro novo, dinheiro suficiente, uma vida digna. A esposa faleceu, ele começou a beber, “um golinho aqui, um golinho ali”, descreve. Mas não deixava de lado os filhos.

Porém o álcool foi tomando conta de sua vida até o ponto em que não pôde mais controlar. Ele então trabalhar em uma cidade vizinha a sua, no interior do Paraná e um dia não voltou mais para casa. A partir de então saiu de seu estado natal e percorreu cidades de Mato Grosso do Sul, em alguns anos chegou a Mato Grosso. No percurso ele conheceu as ruas, quando não tinha dinheiro para pagar um hotel dormia em um papelão. Aos poucos a exceção virou regra e ele foi adotado pela rua. Com uma olhadela para o lado, firmeza na voz e humildade ele afirma “mas sempre procurando ser digno”. Seu Ademim se orgulha de nunca ter roubado.

Ele não sabe dizer se os familiares o procuraram. “Não sei, vai ver procuraram onde eu não estava. Nunca me encontraram”. Hoje seus filhos, Rafael e Angélica, já são adultos. Deles o pai não sabe nada. Mesmo sem a família, seu Ademim gosta de morar em Cuiabá, onde vive há 14 anos, ele acha a cidade acolhedora. “Tenho amizade com todos os meninos da praça”, afirma. A rua já é sua casa, seu Ademim dificilmente sairá dela. 

O álcool faz com que seu Ademim por vezes se esqueça da vida que teve. De quem ele foi e não raramente de quem é hoje. “Você já sentiu a sensação de não saber quem você é”. Ele às vezes esquece. Depois seu Ademim fala de Deus. Todos os moradores de rua conhecem a Bíblia. Não se sabe se apreenderam em suas vidas fora dali ou depois, com a quantidade de grupos religiosos que distribuem comida.

Após minutos de conversa seu Ademim quer deixar um recado. “Se um dia perder alguém, não desanima não, porque a vida é melhor, eu passei tantos anos desanimado”. Seu Ademim ali sentado no meio-fio, sujo, ao lado de dois pães doados e um  Corotinho ainda inspirava o respeito de um pai.

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