Eles não querem só comida

Elton e Danilo estão há três meses em uma casa de recuperação, onde tentam se livrar do vício em drogas. Conflitos familiares levaram ambos para a criminalidade.

Os dias passam devagar na casa de recuperação, na região Pai André, em Várzea Grande. O lugar simples abriga cerca de 30 jovens que tentam se livrar do vício em drogas. Nesse lugar Danilo e Elton se tornaram amigos e a história dos dois é praticamente a mesma. Há cerca de três meses ambos foram tirados da rua por Marlene, voluntária que leva comida aos mendigos das praças de Cuiabá nos domingos. Os dois jovens ela chama de filhos e eles a recebem como uma mãe.

Dentro da chácara Danilo é um jovem gentil e alegre, a pele negra faz contraste com os dentes brancos de seu sorriso enorme. Aos 20 anos, o garoto boa praça, que tem amizade com todos em nada lembra o passado de traficante. Ele ficou órfão aos 11 anos de idade, quando perdeu a mãe e o padrasto, ambos usuários de drogas, uma herança de família que não poupou nenhum de seus irmãos. O pai ele nunca viu, nada incomum para um menino da periferia. Sozinhos, ele e os irmãos foram para a casa dos tios, depois os avós, passou uma temporada em cada lugar, mas não foi criado por ninguém. Ainda aos 11 anos começou a usar maconha, mais tarde da erva passou para a pasta base, depois para a cocaína e para o álcool, droga lícita, mas que afeta tanto quanto qualquer outra. Na adolescência a criminalidade entrou naturalmente em sua vida, como entra na vida de tantos jovens pobres e desorientados das periferias.

Elton não teve trajetória muito diferente. Apesar dos 29 anos, tem cara de menino, franzino e sardento em nada lembra o homem perigoso que já foi. Até hoje toma remédios controlados por psiquiatras para tratar o que ele chama de nervoso. Filho mais velho de quatro irmãos, foi criado pela mãe e pelo padrasto violento, a quem odeia. O pai nunca esteve presente e com ele também não desenvolveu um relacionamento de afeto. Sempre pelas ruas na adolescência passou a consumir drogas e seu primeiro emprego foi como cobrador para traficantes, ganhou uma arma para isso. No primeiro momento sem dinheiro começou a assaltar. “Se eu tenho uma arma na mão, eu tenho dinheiro, pensei”. 

Nem Danilo, nem Elton traficavam ou assaltavam para comer, eles não passavam fome. Os crimes eram para bancar o que todos os jovens querem: roupas, carros, festas, uma vida confortável, o que eles veem na televisão. “Eu queria andar de Golf, ter dinheiro, bebida, mulheres”, relata Danilo. A diferença é que para quem nasce favelado as opções para se crescer na vida são poucas.  “A vida do crime era minha obsessão, minha saída. Quando a gente é jovem a gente quer tudo, tudo a gente quer para nós, né”. E a juventude, fase mais impetuosa da vida, deu coragem para que ambos cometessem todo tipo de crime. "Eu tinha uma quadrilha que assaltava no centro. Quando a gente falava que ia levar alguma coisa, não importava o que custasse, a gente levava. Hoje estão todos mortos, só sobrou eu", conta Danilo. Os dois relatam que ajudaram em diversos assassinatos. "Se não me dessem o que eu pedia, eu atirava, estava lá para matar ou morrer", conta Elton. 

Quando perguntados se sentiam remorso, as risadas entoam.  Danilo, o rapaz gentil, diz que sob o efeito de drogas não se importava, era tomado pelo ódio e violência. Já Elton relata que só conseguia cometer crimes são. "Segurar uma arma na mão e ver o cara tremendo era um dos meus maiores prazeres". Danilo admite que até hoje é respeitado por traficantes e que se quisesse conseguiria uma arma para voltar a traficar no bairro Pedregal, que segundo ele, é a área central da pasta base em Cuiabá.

A vida no crime trouxe dinheiro fácil, mas este foi embora com a mesma rapidez. As desavenças no mundo do tráfico causaram diversas tentativas de assassinato para ambos. Elton foi preso por porte ilegal de arma, passou quase um ano no Centro de Ressocialização de Cuiabá, antigo Carumbé. Na perna a marca do tiro que levou de um policial da Rotan, a Ronda Ostensiva Tático Metropolitana, durante a abordagem que o prendeu. Apesar do nome do presídio, Elton não saiu ressocializado e voltou a usar drogas e cometer crimes.

O uso de drogas também se tornou um problema, passou a consumir os dois jovens. “No começo eu não usava droga pesada, pensava deixa esses bestas trazerem dinheiro para mim”, conta Danilo. Mas ele não resistiu por muito tempo e foi perdendo o controle. Chegou a ficar meses internado no Pronto Socorro de Cuiabá por complicações causadas pelo uso de drogas.
        
Quando o vício já não era mais controlável, sem dinheiro e apoio da família, Elton e Danilo foram morar na rua. Coincidentemente, ambos foram retirados de lá por Marlene, a quem chamam de mãe. As histórias tão parecidas são de dois rapazes que não se conheciam, mas que se repetem na vida da maioria dos jovens que estão na chácara procurando recuperação e nos que ainda portam uma arma nas ruas.

Hoje Danilo e Elton tentam reconstruir suas vidas. Ambos querem ser pastores e casar. Para eles uma mulher na vida pode evitar que façam besteiras. Mas cada dia é uma batalha e por mais que estejam retidos ali o passado sempre vem a tona. Há pouco tempo um desafeto em quem Danilo acertou vários tiros na cabeça veio procurar tratamento na casa de recuperação. A direção preferiu leva-lo para outro lugar. Danilo se sentiu mal pelo ocorrido.

Os dois jovens agora querem se recuperar e voltar para família, com a expectativa de ser um exemplo para pessoas como eles. Tantos Eltons e Danilos, meninos da periferia, que sem estrutura, ainda vão se perder nas drogas e na criminalidade.



Nenhum comentário:

Postar um comentário

Postagens populares