Um banquete para o corpo e alma

Doméstica trabalha em duas casas para alimentar moradores de rua. Ela e um grupo de voluntários percorrem as praças de Cuiabá dois domingos por mês para alimentar e conversar com moradores de rua.

Há seis anos os domingos não são os mesmo para Marlene. Semana sim, semana não a empregada doméstica acorda às três horas da manhã para preparar um banquete. O alimento é feito com muito carinho na cozinha pequena da quitinete onde mora, no bairro Jardim dos Estados, em Várzea Grande, região metropolitana de Cuiabá. A cozinha é decorada com panos de prato pintados e tapetes de crochê. A pia, fogão e geladeira se apertam em um pequeno espaço que só pode acolher, além dos móveis, Marlene. Nas panelas em que tantas vezes cozinhou para os dois filhos, ela mistura os ingredientes para o seu banquete. O cardápio para pelo menos 50 pessoas é pensado para agradar, a bebida é o chá. “Eles não gostam de café”, explica. Tanto cuidado e carinho é dedicado na preparação desse banquete porque é para a família. Marlene vai servir moradores de rua, que ela prefere chamar de filhos.

Marlene é uma mulher simples, aos 41 anos, já criou os dois filhos, e hoje mora só com o marido. O companheiro é caminhoneiro e por conta da profissão constantemente não fica em casa. A doméstica trabalha de segunda a sexta em uma casa, dinheiro que usa para pagar o aluguel e contas. Duas vezes por semana passa roupas em outra residência para sustentar o trabalho voluntário. Apesar de ter o vocabulário um tanto restrito, Marlene surpreende pela inteligência. Sabe interpretar os problemas sociais, entende a realidade de onde vive, é uma mulher despida de preconceitos. Conversa com os moradores de rua, como conversa com qualquer pessoa, não eleva, nem diminui seu tom.

Ela cursou por quase quatro anos o curso de teologia. Pretendia ser voluntária em algum país carente, mas para isso não precisou ir muito longe. Dois domingos por mês ela distribui comida a moradores de rua, que vivem nas praças de Cuiabá. Há oito meses, uma equipe de pastores ajuda na distribuição, até então Marlene percorria as ruas sozinhas. Ela decidiu começar seu trabalho depois de ver um rapaz pegar comida do lixo em frente ao prédio onde trabalha, no centro de Cuiabá. O rapaz comia os restos tirados da lixeira com vontade, como se não comesse há dias. Depois disso, Marlene passou a ver todos os moradores de rua, pessoas invisíveis para a maioria.



Quando chega nas praças para distribuir comida a abordagem é carinhosa, Marlene e os pastores abraçam os moradores, conversam, perguntam como estão, o que eles têm feito. Marlene os trata com sinceridade e boa vontade, por isso tem a total confiança deles. O medo que ela não tem deles, é o que faz com que os mendigos, tão acostumados com rispidez da sociedade, se tornem dóceis e carinhosos. Nos seis anos em que distribuí comida ela diz que nunca foi agredida física ou verbalmente. “Uma vez eu cheguei e um rapaz estava fumando pasta base, ele colocou a droga do lado e me pediu desculpa, eles nos respeitam muito”, explica.

O grupo de voluntários tenta convencer os mais jovens ou novos nas praças a sair das ruas, leva-los para uma casa de recuperação. Os mais jovens, porque ainda não estão atrelados à rua como os outros, ainda não fazem parte dela, ainda não dependem dela para viver. Eles ainda possuem laços com suas casas e famílias, ainda podem sair. Ainda. Com os mais velhos não adianta insistir, a rua é sua casa. E dói para um velho homem sair de seu lar. Ali eles têm amigos, amores, propriedades. O sistema em que os ditos “normais” e “socialmente úteis” vivem, replicado nas ruas pela escória.

Com Marlene os moradores de rua se mostram pessoas carentes, em cada praça uma história. A trajetória dos mais velhos se repete nos mais novos. Problemas familiares, seguido do uso de drogas, principalmente o álcool e a pasta base, e depois as ruas. Alguns perderam o contato com os familiares, outros não são mais aceitos pelos parentes, ou mesmo mentem, não admitem estar sem casa. Uma herança das ruas, com pequenas variações entre a tragédia familiar ou o tipo de droga. No geral, o vício os mantém ali, longe de tudo o que um dia foram. O vício é o único propósito. Alguns não têm nem mesmo a memória. “Você sabe como é não lembrar quem você era? De quem você já foi um dia? Às vezes eu não lembro”, conta o morador de rua Ademim.  

Além de Marlene outros grupos ligados à igrejas distribuem comida. Os religiosos são velhos conhecidos dos moradores de rua. Eles promovem orações que são facilmente acompanhadas pelos mendigos, grandes conhecedores da Bíblia. Não se sabe se aprenderam antes ou depois de irem para as ruas, mas os mendigos no geral, principalmente os mais velhos podem pregar um sermão com facilidade.

As pessoas tristes e abandonadas que vivem nas praças recebem um abraço de Marlene. Ela fala de Deus, de mudança de vida, ou simplesmente ouve. Para eles já é muito. Certa vez, ela teve dificuldades financeiras e não pode levar comida aos moradores, eles pediram para que ela fosse apenas visitar. A mulher simples se emociona quando fala de seu trabalho. Muitas vezes já trouxe moradores de rua para dentro de sua casa e infelizmente muitas vezes teve que devolvê-los à rua porque a família não os quis. “É como deixar um cachorrinho na rua”, conta chorando. Sua maior vontade era poder fazer mais por seus filhos, mesmo assim ela tem consciência da diferença que faz na vida dos homens e mulheres que alimenta. “Sou como aquele beija-flor tentando apagar o fogo da floresta de gotinha em gotinha”. Marlene leva muito mais que comida, leva amor e esperança para os abandonados que ganharam uma nova mãe. Seu banquete não alimenta só o corpo, também alimenta a alma.

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