Doméstica
trabalha em duas casas para alimentar moradores de rua. Ela e um grupo de
voluntários percorrem as praças de Cuiabá dois domingos por mês para alimentar
e conversar com moradores de rua.
Marlene
é uma mulher simples, aos 41 anos, já criou os dois filhos, e hoje mora só com
o marido. O companheiro é caminhoneiro e por conta da profissão constantemente
não fica em casa. A doméstica trabalha de segunda a sexta em uma casa, dinheiro
que usa para pagar o aluguel e contas. Duas vezes por semana passa roupas em
outra residência para sustentar o trabalho voluntário. Apesar de ter o
vocabulário um tanto restrito, Marlene surpreende pela inteligência. Sabe
interpretar os problemas sociais, entende a realidade de onde vive, é uma
mulher despida de preconceitos. Conversa com os moradores de rua, como conversa
com qualquer pessoa, não eleva, nem diminui seu tom.
Ela
cursou por quase quatro anos o curso de teologia. Pretendia ser voluntária em
algum país carente, mas para isso não precisou ir muito longe. Dois domingos
por mês ela distribui comida a moradores de rua, que vivem nas praças de
Cuiabá. Há oito meses, uma equipe de pastores ajuda na distribuição, até então
Marlene percorria as ruas sozinhas. Ela decidiu começar seu trabalho depois de
ver um rapaz pegar comida do lixo em frente ao prédio onde trabalha, no centro
de Cuiabá. O rapaz comia os restos tirados da lixeira com vontade, como se não
comesse há dias. Depois disso, Marlene passou a ver todos os moradores de rua,
pessoas invisíveis para a maioria.
Quando
chega nas praças para distribuir comida a abordagem é carinhosa, Marlene e os
pastores abraçam os moradores, conversam, perguntam como estão, o que eles têm
feito. Marlene os trata com sinceridade e boa vontade, por isso tem a total
confiança deles. O medo que ela não tem deles, é o que faz com que os mendigos,
tão acostumados com rispidez da sociedade, se tornem dóceis e carinhosos. Nos
seis anos em que distribuí comida ela diz que nunca foi agredida física ou
verbalmente. “Uma vez eu cheguei e um rapaz estava fumando pasta base, ele
colocou a droga do lado e me pediu desculpa, eles nos respeitam muito”, explica.
O
grupo de voluntários tenta convencer os mais jovens ou novos nas praças a sair
das ruas, leva-los para uma casa de recuperação. Os mais jovens, porque ainda
não estão atrelados à rua como os outros, ainda não fazem parte dela, ainda não
dependem dela para viver. Eles ainda possuem laços com suas casas e famílias,
ainda podem sair. Ainda. Com os mais velhos não adianta insistir, a rua é sua casa. E dói para um velho homem sair de seu lar. Ali eles têm amigos, amores,
propriedades. O sistema em que os ditos “normais” e “socialmente úteis” vivem, replicado
nas ruas pela escória.
Com
Marlene os moradores de rua se mostram pessoas carentes, em cada praça uma
história. A trajetória dos mais velhos se repete nos mais novos. Problemas
familiares, seguido do uso de drogas, principalmente o álcool e a pasta base, e
depois as ruas. Alguns perderam o contato com os familiares, outros não são
mais aceitos pelos parentes, ou mesmo mentem, não admitem estar sem casa. Uma herança das ruas, com pequenas variações entre a tragédia familiar ou o
tipo de droga. No geral, o vício os mantém ali, longe de tudo o que um dia
foram. O vício é o único propósito. Alguns não têm nem mesmo a memória. “Você
sabe como é não lembrar quem você era? De quem você já foi um dia? Às vezes eu
não lembro”, conta o morador de rua Ademim.
Além
de Marlene outros grupos ligados à igrejas distribuem comida. Os religiosos são
velhos conhecidos dos moradores de rua. Eles promovem orações que são
facilmente acompanhadas pelos mendigos, grandes conhecedores da
Bíblia. Não se sabe se aprenderam antes ou depois de irem para as ruas, mas os
mendigos no geral, principalmente os mais velhos podem pregar um sermão com
facilidade.
As
pessoas tristes e abandonadas que vivem nas praças recebem um abraço de
Marlene. Ela fala de Deus, de mudança de vida, ou simplesmente ouve. Para eles
já é muito. Certa vez, ela teve dificuldades financeiras e não pode levar
comida aos moradores, eles pediram para que ela fosse apenas visitar. A mulher
simples se emociona quando fala de seu trabalho. Muitas vezes já trouxe
moradores de rua para dentro de sua casa e infelizmente muitas vezes teve que
devolvê-los à rua porque a família não os quis. “É como deixar um
cachorrinho na rua”, conta chorando. Sua maior vontade era poder fazer mais por
seus filhos, mesmo assim ela tem consciência da diferença que faz na vida dos
homens e mulheres que alimenta. “Sou como aquele beija-flor tentando apagar o
fogo da floresta de gotinha em gotinha”. Marlene leva muito mais que comida,
leva amor e esperança para os abandonados que ganharam uma nova mãe. Seu
banquete não alimenta só o corpo, também alimenta a alma.