Mesmo na rua as mulheres são designadas para o
serviço doméstico. Os preconceitos e desafios vivido pelo gênero não são
diferentes para as moradoras de rua.
Ingrid era a única mulher que estava na Praça
Alencastro naquela manhã de domingo quando um grupo chegou para distribuir pão.
Ela sorriu ao ver Marlene, uma das voluntárias, como se visse uma velha amiga. As
duas se abraçaram. E nas escadarias de uma espécie de monumento na Praça
Alencastro, em Cuiabá, Ingrid se levantou e cumprimentou a todos, como se
estivesse os recebendo na porta de sua casa. Acima das escadas, um homem dorme,
é seu companheiro. Ingrid tem lar e é comprometida.
A
alegria deixou Ingrid mais bonita. A mulher morena tem covinhas nas bochechas
quando sorri e não nega a vaidade, usa uma grande argola em apenas uma das orelhas. Na
boca um aparelho que não se sabe há quanto tempo não recebe manutenção de um
dentista. Mesmo assim, sustenta certa elegância com seu porte alto e magro. Quando
lhe ofereceram um calçado, Ingrid só disse que o difícil seria caber no pé.
“Olha esse que lindo, mas não serve nesse meu pezão”. Até que achou um que
servisse.
Quando
fala a garota de rua surpreende pela articulação. É bem humorada, irônica,
desinibida. Sustenta um assunto com facilidade e fala das dificuldades da vida
que leva com humor. Todos riem. Ela pede ao grupo de voluntários que volte para
fazer um culto na praça. “Mas dá a comida depois da oração, que se não os
malandro comem e vão embora”.
Ingrid
vive há oito anos nas ruas de Cuiabá, antes morava em Rondônia. Ela conta sobre
uma adolescente que chegou há pouco tempo e ainda não sabe bem como se
comportar. As mulheres querem tirá-la de perto para não perderem seus
companheiros. Assim como em qualquer outro lugar, nas ruas ter muitos
homens não traz boa fama às mulheres. “Vive com um e com outro. Avisei só para ela tomar cuidado para não
pegar barriga”. A gravidez nas ruas, Ingrid sabe como é. Sua filha hoje tem 12
anos e vive com a avó. História difícil para ela e para a criança. A opção de
Ingrid separou as duas, sua paz é saber que a filha tem uma casa para morar.
Dinheiro
Ingrid ganha lavando roupa para os amigos, mesmo nas ruas, as mulheres ficam com
os serviços domésticos. E não diferente da sociedade atual, ela também
“trabalha fora”, cuidando de carros, parte do dinheiro envia pra a filha.
Ingrid tem uma rua pouco acima da Praça Alencastro que aluga para outros
mendigos cuidarem de automóveis por R$15. Já o companheiro dela paga por uma
rua próxima R$ 30. “Eu sou mais humilde, cobro menos”. O casal divide as
contas. Há pouco tempo decidiram procuram uma casa para morar. A única que
podiam pagar, no bairro Porto, ficava perto de uma boca de fumo muito
frequentada pela Rotam, a Ronda Ostensiva Tático Metropolitana, braço da
Polícia Militar. Desistiram. Então tentaram limpar uma das várias casas
abandonadas no Centro da capital, mas o dono não quis mendigos em sua
propriedade.
Ingrid
admite que a vida nas ruas é mais difícil para as mulheres. Segundo a Pesquisa Nacional Sobre a População em Situação de Rua, realizada em 2007 pelo Ministério do Desenvolvimento Social e Combate a Fome, apenas 12% da população de rua é feminina. “Até para “mijar” a
gente tem que procurar um lugar mais escondido, os meninos fazem em qualquer
canto”. Em nenhum momento ela reclamou da vida que leva, mas não quis tirar
fotos com ninguém. Não quer que sua imagem na rua chegue a algum conhecido.
Quando se despediu, deu tchau com um aceno, como se os visitantes saíssem pelo
portão de sua casa.
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